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Parlamentares questionam prefeito sobre péssimo atendimento na Saúde

Durante a sessão ordinária do dia 14 (segunda), quatro requerimentos aprovados por unanimidade expõem um padrão que já não é mais exceção na Câmara Municipal de Ibaté: o Legislativo pedindo à Prefeitura números, documentos e explicações que, em tese, já deveriam estar disponíveis de ofício à população.

O pacote, protocolado pelo vereador Professor Hícaro (PT) e pela dupla Elizeu do Cruzado (PL) e Waldir Siqueira (PRD), mira exatamente o ponto mais sensível da administração do prefeito Ronaldo Venturi (PSD): a saúde pública municipal.

O requerimento de autoria do professor Hícaro solicitou da Prefeitura o número exato de pacientes na fila de espera por laqueadura — um procedimento de planejamento familiar que, em municípios de porte semelhante ao de Ibaté, costuma acumular esperas de meses a anos quando não há mutirões cirúrgicos dedicados. O pedido é enxuto, mas didático: sem o dado, não há como a própria Câmara dimensionar o tamanho do problema, tampouco cobrar prazos.

Os vereadores Elizeu e Siqueira foram mais exigentes nos imbróglios do setor da Saúde e apresentaram três requerimentos de fiscalização financeira e operacional:

  • Rastreamento de recursos do Hospital de Ibaté: pede prestação de contas completa desde 1º de janeiro de 2025 — verbas do SUS, emendas parlamentares, convênios e repasses diversos —, discriminando valor, data, origem, finalidade e as respectivas notas ou documentos comprobatórios de gasto. É, na prática, uma auditoria parlamentar informal sobre um hospital que, como mostram reportagens da imprensa regional, vem recebendo uma sequência de aportes federais e emendas ao longo de 2026:

– R$ 1 milhão do Ministério da Saúde anunciado em julho por intermédio do ex-prefeito de Araraquara Edinho Silva (PT) e da deputada estadual Thainara Faria (PT), atendendo a demanda apresentada em conjunto pelo próprio Venturi e por Professor Hícaro; – R$ 630 mil em equipamentos via emenda do deputado federal Luiz Carlos Motta (PL); e

– R$ 500 mil articulados pelo vereador Val Construtor (PSD) em fevereiro.

Somados, são mais de R$ 2 milhões anunciados para a unidade em menos de um ano — e é justamente esse volume de dinheiro público que os vereadores querem ver comprovado ponta a ponta.

  • Terceirização da enfermagem: questiona se há empresas terceirizadas atuando na enfermagem do hospital e, em caso positivo, quantos profissionais fornecem e sob que contrato — ao mesmo tempo em que pergunta se existe concurso público vigente para enfermeiros e técnicos. É uma pergunta que aponta para uma tensão clássica da gestão pública municipal: contratar por fora custa mais caro no longo prazo e tende a gerar rotatividade, mas é a saída mais rápida quando falta gente concursada.
  • Escala médica do plantão de 9 para 10 de setembro: Este é o requerimento mais duro do lote. Os vereadores pedem cópia da escala completa, número de médicos escalados, relação nominal com horários, confirmação de quem efetivamente compareceu, cópia dos registros de ponto e, se houve falta, troca ou substituição, os motivos e os nomes envolvidos. Um pedido desse nível de detalhe — batendo escala contra ponto, nominalmente — não se faz por curiosidade. Ele só se justifica quando já existe suspeita concreta de que a escala divulgada não corresponde ao plantão realizado, o que é gravíssimo em um serviço de urgência e emergência.

Fecha o pacote um quarto requerimento, também da dupla Cruzado–Siqueira, pedindo informações sobre o credenciamento de laboratórios que realizam exames clínicos pagos pela Tabela SUS no município — outro ponto de estrangulamento clássico na atenção básica, onde a demora para resultado de exame pode atrasar diagnóstico e tratamento.

Promessa não cumprida

A cobrança da Câmara ganha outro peso quando comparada à narrativa que a própria Prefeitura constrói sobre a saúde municipal.

Em entrevista dada por ocasião dos 133 anos de Ibaté, em junho de 2026, Venturi — então no segundo ano de mandato — apontou como avanços a presença de três médicos no pronto-atendimento do hospital, a implantação de triagem 24 horas, ampliação de cirurgias, mutirões para reduzir filas de exames e a chegada de uma viatura do SAMU via governo federal, além de negociações com São Carlos para Ibaté funcionar como subsede do serviço de urgência regional. Ele também citou como prioridade dos próximos meses o início da construção de um novo pronto-atendimento e uma nova UBS no CDHU, esta já em fase de levantamento de paredes.

O quadro que aparece na cobertura da imprensa local, porém, não é só de investimento anunciado. Em uma sessão da Câmara registrada em agosto de 2026, Elizeu voltou a cobrar publicamente a saúde do município, citando demora em encaixes e exames e dificuldades no PSF do Jardim Esfer — e relatou o caso de uma paciente idosa, de 71 anos, que esperou quase três meses para conseguir uma avaliação de exame, endereçando a crítica diretamente ao prefeito.

Em julho, na mesma coluna política local, Siqueira já havia chamado atenção para crianças entrando em listas de espera sem qualquer protocolo formal de controle — um problema, segundo o relato da sessão, que “ainda estaria no caderno”, ou seja, sem sistematização digital ou pública.

Esse descompasso não é novo. Já em agosto de 2025, a própria Câmara havia aprovado uma indicação pedindo à Prefeitura que desse publicidade e transparência às listas de espera de exames e consultas com especialistas do SUS — sinal de que a falta de um canal claro de acompanhamento para o paciente é uma reclamação recorrente, e não um fato isolado. Passado mais de um ano, o requerimento de setembro de 2026 sobre a fila de laqueaduras mostra que esse gargalo de informação básica ainda não foi resolvido.

Índices assustadores

Lido em conjunto, o pacote de requerimentos desenha um recado incômodo à gestão Venturi: o dinheiro para a saúde de Ibaté está chegando — em ritmo relevante, puxado por emendas federais e estaduais —, mas o controle sobre como esse dinheiro é aplicado, sobre quem efetivamente presta o serviço na ponta e sobre quanto tempo o cidadão espera por um procedimento simples ainda depende de vereadores pedindo, um a um, dados que uma prefeitura organizada deveria publicar por iniciativa própria em seu portal da transparência.

O requerimento sobre a escala médica do plantão, em particular, é um alerta que a Prefeitura não pode se dar ao luxo de tratar como rotina: pedir nominalmente quem estava escalado e quem efetivamente compareceu, batendo contra o ponto, é o tipo de fiscalização que só se aciona quando a confiança no que é informado oficialmente já foi abalada.

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