Projeto da Prefeitura gera baderna e prefeito é calado no legislativo
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Ibaté da última segunda-feira (27) reuniu o seu contingente de parlamentares e deixou claro que a pauta pesada — mais de dez processos, entre projetos de lei e créditos — não foi o que mais chamou atenção. O que ficou mesmo foi o clima de bate-boca, puxões de orelha e uma boa dose de contradição política.
O item que concentrou a maior discussão da noite foi o Processo nº 402/2026, que institui um novo Regime Disciplinar para os servidores públicos de Ibaté. Segundo a ata oficial, o projeto tem mais de 100 artigos e foi debatido por quatro vereadores — Elizeu do Cruzado (PL), Hícaro Costa (PT), Waldir Siqueira (PRD) e Ivani do Cruzado (PSDB) — antes de ser aprovado por 5 votos a 4.
Essa votação apertada escondeu uma confusão e tanto. De acordo com relatos dos bastidores, o texto chegou à Câmara numa quinta-feira e já estava pronto para votação na segunda seguinte, sem que todos os vereadores tivessem tido tempo de lê-lo por completo. O vereador Siqueira chegou a apontar que a matéria foi votada sem um parecer jurídico concluído.
O vereador Hícaro resolveu perguntar aos colegas detalhes básicos do projeto — prazos, número de integrantes da comissão, tipos de punição previstos. A cobrança não caiu bem para o colega Gilmar Santos (PL), que classificou as perguntas como um “vestibular” e acusou o petista de causar tumulto na sessão. A presidente do legislativo, vereadora Viviane da ONG (Podemos), aliás, chegou a interromper a fala do prefeito Ronaldo Venturi (PSD) durante a discussão, pedindo ordem na Casa.
O desfecho foi ainda mais duro: a vereadora Ivani encerrou a sessão chamando Hícaro de “demagogo” e acusando-o de realizar “lavagem cerebral”. A ata registra que o debate era sobre disciplina dos servidores — mas quem levou a advertência verbal foi justamente quem tentou entender o projeto antes de votar. Hícaro, inclusive, pediu que o episódio constasse em ata e mencionou a possibilidade de acionar o Ministério Público, alegando que vereadores estariam votando sem conhecer por completo o conteúdo da lei.
Seguro de vida por etapas, diárias no vermelho
Na mesma sessão, o Processo nº 400/2026 — que cria seguro de vida em grupo para a Guarda Civil Municipal e a Defesa Civil — também passou apertado, com 5 votos a 4. Hícaro, Elizeu, Waldir e Jaque Motta (Republicanos) votaram contra, não por serem contrários ao benefício, mas porque defendem estender a proteção a motoristas, eletricistas e servidores do Departamento de Água e Esgoto (DAE), categorias que ficaram de fora do texto.
Gilmar, que votou a favor, disse que os benefícios devem chegar “por etapas” às demais categorias — promessa que já dura um ano e sete meses, segundo cobrança feita durante a sessão.
Já o Processo nº 401/2026, que muda as regras de pagamento de diárias no Executivo, também foi aprovado por 5 a 4, com voto de desempate da presidente Viviane. Hícaro, Waldir e Elizeu alertaram que as novas regras podem prejudicar motoristas e reduzir benefícios já conquistados, e pediram diálogo com a categoria e o sindicato antes da votação — pedido que não foi atendido.
Voto secreto sobrevive de novo
Outro ponto de atrito foi o Processo nº 406/2026, apresentado por Hícaro, Elizeu e Jaque, que propunha acabar com o voto secreto na eleição da Mesa Diretora da Câmara. Waldir apoiou a mudança e chamou o sigilo do voto de absurdo. Mesmo assim, o projeto foi rejeitado por 5 votos a 4, com voto contrário da presidente Viviane — que também usou seu voto de minerva para barrar a proposta.
A cavalgada que virou piada
Um dos momentos mais curiosos da sessão envolveu o Processo nº 366/2026, que inclui a Cavalgada de São Francisco de Assis no calendário oficial do município. O projeto foi aprovado por unanimidade, mas não sem antes gerar confusão sobre autorização, pressão política e responsabilidade pelo evento — a ponto de a proposta similar sobre a “Cavalgada do Magrão” acabar retirada de pauta.
O detalhe que rendeu a maior repercussão, porém, foi fora do plenário: em entrevista a um programa local no início de junho, a própria presidente Viviane, que se apresenta como protetora de animais, disse que proibiria rodeios e cavalgadas caso pudesse. Menos de dois meses depois, ela apareceu como coautora do projeto que oficializa justamente uma cavalgada no calendário do município — ao lado do vereador Val Construtor (PSD).
Parquinho quebrado, licitação sob suspeita e saúde na fila
Fora dos holofotes das votações apertadas, outros temas também mostraram cobrança da oposição. Elizeu cobrou agilidade para retirar um brinquedo quebrado no Jardim Cruzado, e a Câmara aprovou por unanimidade um requerimento pedindo informações sobre o processo de aquisição de parquinhos infantis no município.
Também passou um pedido de esclarecimento sobre o Pregão Eletrônico nº 29/2026, de pintura em prédios públicos: o valor estimado da licitação era de R$ 4.258.270,00, mas o valor final homologado ficou em R$ 1.507.500,00 — uma diferença que os próprios vereadores classificaram como “excelente”, mas que exigiram ver explicada com detalhes, incluindo lista de empresas participantes e metodologia usada no cálculo.
Na saúde, Elizeu relatou esperas de 55 a 66 dias para conseguir consulta, enquanto Waldir criticou o número insuficiente de encaixes nos PSFs. Um requerimento sobre a situação do PSF do Jardim Esfer, cobrando dados sobre sobrecarga de atendimento, também foi aprovado por unanimidade.
O “puxão de orelha” no prefeito
Por fim, mesmo o prefeito Ronaldo não escapou da tensão do plenário. Ao tentar se manifestar sobre o retorno dos diretores escolares, foi interrompido pela presidente Viviane, que pediu ordem na Casa antes mesmo de ele concluir a fala — numa sessão em que ficou claro que discutir os detalhes de um projeto, por mais óbvio que pareça, ainda é motivo de bate-boca na Câmara de Ibaté.








