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Legado Parrella assombra gestão travada de Venturi

Uma grande imagem em letras garrafais, com um rosto famoso e uma mensagem, bastam para medir a distância que separa a Encanto do Planalto de ontem da de hoje. Enquanto a cidade presta homenagem aos 20 anos de um comando forte e reconhecível do eterno Zé Parrella, a atual administração municipal, comandada por Ronaldo Venturi (PSD), tenta se firmar em meio a queixas sobre falta de água, obras paradas, entregas atrasadas e uma crise política que já custou a saída do vice-prefeito. O contraste é inevitável — e muito incômodo para o atual gestor.

Um outdoor instalado na entrada do Distrito Industrial de Ibaté homenageia Parrella, prefeito que comandou o município por quatro mandatos ao longo desta última década — governou entre 2005 e 2012 e voltou ao Executivo entre 2017 e 2024, além de ter emplacado sucessores como Dr. Alessandro Rosa e a sua namorada Lu Spilla no comando da cidade.

Esse painel traz uma imagem do ex-prefeito ao lado de mensagens de reconhecimento, entre elas a frase “Sua ausência é sentida todos os dias por nós”, e resgata o bordão que marcou sua trajetória pública: “Eu sou o Zé Parrella”.

Nascido em 18 de maio de 1950, empresário antes de entrar para a política, Parrella morreu em 28 de junho de 2025, aos 75 anos. Depois de sua morte, a cidade multiplicou os gestos de memória — o mais recente é a denominação da Praça dos Três Poderes com seu nome.

Durante suas gestões, o município recebeu investimentos em pavimentação, saúde, educação e infraestrutura urbana, além do fortalecimento do próprio Distrito Industrial, justamente o endereço escolhido para a homenagem.

É esse legado — de continuidade, obras entregues e um nome que a população ainda associa a resultados concretos — que hoje serve de contraponto silencioso à gestão que veio depois dele.

Caminhos Obtusos

Venturi assumiu a Prefeitura de Ibaté em janeiro de 2025 prometendo modernizar a cidade. Mas o início do mandato já trouxe sinais de dificuldade. Em entrevista concedida ainda no primeiro semestre de gestão ao Jornal Primeira Página, o próprio prefeito reconheceu que os investimentos em infraestrutura não haviam acompanhado o crescimento populacional do município e admitiu ter encontrado dívidas não registradas e problemas administrativos ao chegar ao Paço.

O desconforto interno se tornaria público meses depois. Em fevereiro de 2026, o vice-prefeito Damião Sousa (PV) renunciou ao cargo, citando divergências com a condução da administração. Em pronunciamento reproduzido pela imprensa regional, o ex-vice declarou não se sentir mais à vontade para permanecer na função, dizendo que não pretendia continuar recebendo remuneração pública sem contribuir de forma efetiva para a gestão.

O político da legenda verde também apontou dificuldades ligadas à condução administrativa e à atuação de alguns secretários como motivo da saída — um recado duro, vindo de dentro da própria base aliada. A crise não ficou restrita ao Paço.

Moradores de diversos bairros voltaram a reclamar da instabilidade no abastecimento de água, problema que, segundo queixas registradas por munícipes em redes sociais e enviadas à imprensa local no fim de 2025, teria se agravado de forma perceptível já sob a nova administração municipal. Falhas em bombas do sistema responsável por abastecer praticamente toda a cidade e manutenções emergenciais em adutoras tornaram-se queixas recorrentes ao longo de 2025 e 2026.

Na Câmara Municipal, os vereadores continuam cobrando serviços básicos que se arrastam de gestão em gestão. Indicações pedindo a intensificação dos trabalhos de tapa-buracos, pavimentação de vias e manutenção urbana seguem pautando as sessões, sinal de que problemas estruturais antigos ainda não encontraram solução definitiva.

Mesmo entregas simbólicas, como os uniformes escolares, sofreram atraso. A licitação que deveria ter sido concluída em novembro do ano anterior não saiu no prazo, e o próprio prefeito precisou admitir publicamente que a distribuição só ocorreria meses depois do previsto.

Cego em tiroteio

Venturi reage às críticas apontando iniciativas em curso: ampliação de vagas em creches, reforço no atendimento médico do pronto-socorro, criação da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, negociações por recursos do Novo PAC e a promessa de que 2026 marcaria “o início da colheita dos resultados”, depois de um primeiro ano dedicado, segundo ele, à reorganização interna.

São sinalizações de que a máquina pública está em movimento, mas, para parte da população e da própria base política que o elegeu, o ritmo ainda não corresponde à urgência dos problemas do dia a dia.

É nesse cenário que a homenagem a Parrella ganha um peso simbólico que talvez nem tenha sido plenamente calculado por quem a idealizou. Ao lembrar publicamente de duas décadas de comando reconhecido, a cidade também expõe, por comparação, as fragilidades de uma gestão ainda em busca de estabilidade.

O outdoor fala do passado. Mas, à sua maneira, também se conecta com o presente insatisfatório.

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