Numa sessão que passou quase despercebida da população, os vereadores de Ibaté decidiram, por maioria apertada, manter em segredo um dos atos mais simples — e mais simbólicos — da vida de qualquer Casa Legislativa: a escolha de quem vai presidi-la.
O Processo CM nº 406/2026, votado em segunda discussão no dia 22 de julho de 2026, propunha revogar o item 1 do Parágrafo Único do artigo 15 da Lei Orgânica do Município de Ibaté, substituindo o voto secreto pelo voto aberto na eleição dos membros da mesa diretora da Câmara Municipal e de seus substitutos. A proposta foi apresentada pelo vereador Professor Hícaro (PT), pelo vereador Elizeu do Cruzado (PL) e pela vereadora Jaque Motta (Republicanos).
O resultado: rejeitada por 5 votos contrários a 4 favoráveis. Uma diferença de um único voto bastou para que Ibaté seguisse na contramão de um movimento que, em diversas câmaras municipais do país, tem avançado justamente na direção oposta — a de abrir ao público o processo de escolha de quem administra o dinheiro, os cargos e a pauta do Legislativo local.
O que estava em jogo
A mudança discutida em Ibaté não tratava de nenhuma pauta ideológica complexa. Tratava de transparência básica: se o eleitor tem o direito de saber, publicamente, em qual candidato cada um de seus representantes vota quando o assunto é escolher a cúpula da própria Câmara. Hoje, pelo texto ainda vigente da Lei Orgânica, esse voto continua protegido pelo sigilo da cédula — um mecanismo que, na prática, impede que o cidadão cobre coerência de quem elegeu.
Participaram da discussão em plenário, além dos autores do projeto, o vereador Waldir Siqueira (PRD) e a vereadora Ivani do Cruzado (PSDB). O placar final — 5 a 4 — revela uma Casa dividida quase ao meio, o que torna a derrota da proposta ainda mais reveladora: bastaria um vereador mudar de posição para que Ibaté hoje já elegesse sua mesa diretora a céu aberto.
Um debate que não é só de Ibaté
A discussão sobre sigilo ou publicidade na eleição de mesas diretoras não é exclusividade ibateense. É uma tensão recorrente em câmaras municipais e também no Congresso Nacional. Em 2019, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, negou pedido de um deputado federal eleito que pedia que a eleição da Mesa da Câmara dos Deputados fosse aberta, ostensiva e pública — mantendo, à época, o sigilo do voto naquela instância.
Mas a tendência recente em muitas Casas municipais tem sido a de derrubar o sigilo, não preservá-lo. Em setembro de 2025, por exemplo, a Câmara de Recife rejeitou justamente uma proposta que pretendia instituir o voto secreto para a eleição de sua mesa diretora — movimento inverso ao de Ibaté, mas que mostra o mesmo debate de fundo: legisladores locais têm sido cobrados a justificar por que um ato tão relevante quanto escolher o comando do Legislativo deveria escapar do escrutínio público.
O argumento usado por quem defende manter o sigilo costuma ser sempre parecido: proteger o vereador de pressões, constrangimentos ou retaliações políticas. Já quem defende a abertura argumenta que a soberania popular se exerce, sim, pelo voto secreto do cidadão nas urnas — mas que, dentro do parlamento, os representantes eleitos atuam em nome público e devem satisfação pública de seus atos, inclusive de seu voto.
O que fica para o eleitor
Em Ibaté, o episódio deixa uma pergunta simples e incômoda: por que cinco vereadores preferiram que o processo de escolha da própria mesa diretora — a instância que vai comandar a pauta, os recursos e a rotina da Câmara pelos próximos anos — permanecesse protegido do olhar de quem os elegeu?
O texto do Processo 406/2026 não chegou a vingar. Mas o placar apertado sugere que essa disputa está longe de terminar — e que, na próxima tentativa, um único voto pode ser o suficiente para acabar com a votação secreta em Ibaté.







