Aos 39 anos, o professor e cientista social Djalma Nery (PSOL) deixou de ser apenas o vereador mais votado da história de São Carlos para se tornar peça central na engenharia eleitoral da esquerda paulista. Filiado ao PSOL desde 2012, construiu sua carreira política a partir do ativismo ambiental: foi fundador da Associação Veracidade, entidade dedicada à permacultura, à agroecologia e à economia solidária, e chegou à Câmara Municipal em 2020 com a maior votação da cidade, repetindo essa proeza em 2024.
Neste ano, sua trajetória ganhou um capítulo inédito. Cotado inicialmente para concorrer a uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Djalma foi convidado pessoalmente por Marina Silva (Rede) para integrar a chapa da ex-ministra do Meio Ambiente ao Senado Federal, tornando-se o primeiro suplente da candidata na disputa por uma das duas vagas de São Paulo.
A escolha, segundo a própria cúpula da campanha, buscava um nome jovem, do interior e identificado com a pauta ambiental — características que Djalma reúne como poucos entre os quadros municipais do estado. A chapa é encabeçada por Fernando Haddad (PT) ao governo paulista, com Márcio França (PSB) na vice, e coloca São Carlos, pela primeira vez, a um passo de uma cadeira no Senado.
Mas essa movimentação também rendeu polêmica. Dias depois de selar a paz com o ex-adversário Newton Lima (PT), Djalma surpreendeu a política local ao declarar apoio à candidatura de Dé Alvim (Solidariedade), do campo de centro-direita, o que provocou reações duras de setores do próprio PSOL.
Nesta entrevista, ele explica os bastidores dessa aliança, rebate as acusações de traição ideológica e se posiciona sobre temas espinhosos da agenda nacional — da descriminalização das drogas ao impeachment de ministros do STF — sem deixar de revelar se pretende, um dia, disputar a Prefeitura de São Carlos.
1 – No lançamento da candidatura de Newton Lima (PT) ao cargo de deputado estadual, o senhor selou a paz relacionada a uma discussão que teve com ele após o resultado das eleições de 2024. No entanto, no dia seguinte, anunciou apoio à candidatura de Dé Alvim (Solidariedade), com a presença do ex-vereador Leandro Guerreiro (PL). Essa atitude foi um movimento de vingança contra o petista, que teria tentado, nos bastidores, vetar sua candidatura à primeira suplência de Marina Silva (Rede)?
R: Não tem absolutamente nada a ver com vingança. Tem a ver com a construção de uma frente ampla para viabilizar a candidatura de Marina ao Senado. Todos os candidatos e candidatas que se comprometem a apoiá-la, a fazer campanha e a defender as nossas pautas estão sendo apoiados por mim, inclusive os que estão fora do espectro tradicional da esquerda.
O Dé é um deles. O Newton é outro, que está no nosso campo. O Edson Ferraz (MDB) também deu, recentemente, uma entrevista em uma rádio declarando apoio à Marina e, por consequência, também tem o meu apoio e a minha torcida. Claro que o voto a gente tem só um, cada um tem o seu, mas o meu compromisso é com a nossa região, com São Carlos e com as nossas pautas.
Esse apoio ao Dé não tem nenhuma ligação com o Newton ou com qualquer movimentação da parte dele. O problema é que a repercussão, inclusive na imprensa, se deu por causa do repúdio a outra pessoa (se refere ao ex-vereador Leandro Guerreiro), que integra o grupo de apoio ao Dé e que é antagônica às nossas perspectivas. Isso gerou todo o desconforto.
Mas quero reforçar que não existe nenhum movimento de vingança. Eu apoio o Dé, assim como apoio outros candidatos da cidade e da região — tenho declarado isso publicamente, está tudo nas minhas redes. São cerca de 10 a 12 candidatos a deputado estadual e outros 10 a 12 a deputado federal, todos comprometidos com a Marina e com as nossas bandeiras.
2 – Muitos militantes do PSOL criticaram a sua atitude de apoiar uma candidatura de centro-direita. O senhor está arrependido ou vai manter o apoio ao Dé?
R: Os militantes do PSOL criticaram a minha atitude de apoiar essa candidatura. Estou arrependido? Não. Para eleger uma senadora, é preciso vencer uma eleição majoritária — são necessários cerca de 10 milhões de votos. Não é uma eleição de deputado, e a esquerda sozinha não tem esses votos.
Por isso, precisamos ampliar o nosso espectro, sair da zona de conforto, sair da bolha. A Marina é, de fato, a candidata mais preparada, mais ética e mais comprometida com as melhores ideias e propostas, mas ela precisa do aval da população pelo voto.
São Paulo tem 34 milhões de eleitores, e estamos disputando dez milhões desses votos — não é pouca coisa. A única infelicidade, nesse episódio, foi toda uma composição de foto, local e momento, somada à forma como isso repercutiu e a um certo movimento raivoso de setores mais ortodoxos da esquerda, que acabou gerando toda essa comoção.
Mas estou convencido de que é mais do que urgente ampliar o diálogo — todo mundo fala nisso, mas é hora de fazer.
3 – O senhor apoia integralmente as causas do seu espectro político, como a ideologia de gênero, a descriminalização das drogas, a liberação do aborto, a federalização das polícias militares estaduais, o não aumento das penas para crimes hediondos e a proibição de qualquer modelo de privatização?
R: Acho que ninguém apoia 100% a cartilha de partido político nenhum — e comigo não é diferente. Claro que tenho concordância com 99% do que o pessoal defende, mas também tenho algumas divergências.
Os temas listados aqui são vários e profundos, e alguns deles são polêmicas falsas. É o caso da chamada ideologia de gênero — um assunto de gente que nunca pisou numa escola pública, que não tem a menor noção do que de fato acontece e que fabrica situações simplesmente falsas. Ninguém convence ninguém a mudar de orientação sexual ou de identidade de gênero. Isso é balela, é pânico moral puro e simples.
Outros assuntos, sim, precisam ser mais bem debatidos, como a descriminalização das drogas. Não sou a favor de descriminalizar todas as drogas — precisamos ter responsabilidade, até porque a dependência química é uma realidade no Brasil, e não dá para facilitar o acesso.
Ao mesmo tempo, a guerra às drogas vitima majoritariamente a população pobre da periferia e nunca pega os grandes. Essa política de enxugar gelo, que está enchendo os presídios e empurrando a nossa juventude para o crime organizado, não funciona. Por isso, o tema precisa ser debatido sem moralismo.
O mesmo vale para o aborto, que deve ser tratado como uma questão de saúde pública — uma realidade que acontece clandestinamente no país e que não pode ser tabu.
Sobre a federalização das polícias militares estaduais, são todos assuntos que precisamos discutir com calma, para não cair num reducionismo. A esquerda não é a favor do crime — pelo contrário, queremos que os problemas de segurança pública sejam de fato solucionados, com responsabilização para os criminosos.
E sobre as privatizações: essencialmente, o que é de interesse público tem que ser público. Mas, quando a gestão privada puder realizar um trabalho de forma mais eficiente, transparente e benéfica para a coletividade, não vejo motivo para uma proibição absoluta — nenhum modelo deveria ser descartado de antemão. Depende. É preciso discutir o que funciona e o que não funciona.
4 – Na hipótese de assumir o cargo de senador, quais seriam os projetos em prol de São Carlos? Há algum esboço sobre o Porto Seco, a atração de centros logísticos ou o fomento de mais recursos ao setor de inovação para a chamada Capital da Tecnologia?
R: São Carlos é a Capital da Tecnologia, mas está esquecida no que diz respeito à atenção das políticas públicas. A nossa ideia é trazer esse protagonismo para o plenário do Senado Federal, vocalizar as bandeiras da nossa região e trazer investimento em ciência, tecnologia e inovação para gerar emprego e renda.
Quero dar destaque ao turismo tecnológico e ao turismo de base comunitária e universitária, para os quais São Carlos tem total vocação. A cidade precisa de representantes e de investimentos adequados para aproveitar essa vocação e gerar um ciclo de prosperidade para o nosso município.
5 – Deixando de lado qualquer orientação partidária, o senhor votaria a favor do impeachment de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes ou de outro ministro cujas atitudes não aprovasse?
R: Com certeza não existe orientação partidária que impeça uma votação de impeachment de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes ou de qualquer outro ministro.
Existe um rito para isso: comprovada qualquer irregularidade ou imoralidade flagrante compatível com a cassação de mandato, temos, sim, que cassar e realizar o impeachment — e, mais do que isso, é preciso responsabilizar ministros do Supremo que estão envergonhando o Estado brasileiro e criando uma sensação de desilusão e desesperança na população.
Ninguém está acima da lei, nem mesmo quem está no topo do Judiciário brasileiro. Não existe nenhuma orientação ou impedimento nesse sentido. É um escândalo, é um escárnio o que está acontecendo no Brasil, e precisamos, sim, virar essa página da nossa história.
6 – O senhor é a favor de uma reforma no STF que altere o processo de escolha dos ministros e reduza o tempo de mandato?
R: Defendo, sim, uma reforma do STF. Esse mandato vitalício, em que um ministro pode permanecer 40 anos no cargo, garante estabilidade, mas também abre espaço para uma espécie de autocracia incompatível com o processo democrático brasileiro.
Precisamos de uma reforma profunda em todo o Judiciário, que é repleto de penduricalhos e benesses no alto escalão — da primeira instância aos desembargadores, chegando aos ministros do Supremo, onde estão as principais dificuldades.
7 – Independentemente do resultado das eleições de outubro, Djalma Nery é um potencial candidato a prefeito de São Carlos em 2028?
R: Pergunta difícil. Vou ser muito franco: não consigo nem pensar nessa hipótese agora. Estou tão concentrado na campanha deste ano, que é tão condicionante e tão crucial para tantas coisas, que, a depender do resultado, muitas coisas diferentes podem acontecer na minha vida, na vida do povo paulista e do povo brasileiro.
Tenho uma vontade pessoal e também um sentimento coletivo, que percebo na própria população, de, em algum momento, colocar o meu nome à disposição para ocupar a Prefeitura de São Carlos e gerenciar a cidade em que cresci e que amo.
Não sei se isso vai acontecer em 2028 ou em outro momento, mas espero, num futuro não muito distante, ter a oportunidade de orgulhar ainda mais o meu município e mostrar que é possível fazer gestão pública de qualidade, com justiça social, preservação do meio ambiente e ampliação daquilo que já vimos construindo.







