Filho do Planalto
Eu nasci no alto. Não no sentido de grandeza, mas no sentido literal: 840 metros de altitude, onde o vento chega primeiro e o sol demora um pouquinho mais para se despedir no fim do dia. Dizem que meu nome vem do tupi, ybaté, que quer dizer “lugar alto”, “cume”. Outros contam que vem de uma lagoa que nunca existiu de verdade — uma miragem que os viajantes do século XIX juravam ver na estrada de terra entre São Carlos e Araraquara. Gosto de pensar que sou um pouco das duas coisas: um lugar que fica no alto, e um lugar que desperta encantamento até quando não há nada lá. Talvez seja por isso que me chamam de Encanto do Planalto.
Minha infância tem cheiro de café. Foi ele que me trouxe à vida, lá em 1893, quando João Evangelista de Toledo e seus genros decidiram plantar, em terra de sesmaria, mais do que uma lavoura: plantaram um povoado. Chamaram-no São João Batista da Lagoa. Eu era pequeno, era trilho de trem, era estação de passagem na linha que ligava Rio Claro a São Carlos. Mas toda cidade grande já foi, um dia, só um sonho ao lado de uma ferrovia.
Cresci devagar, como crescem as coisas que vão durar. Fui distrito, fui vila, até que em 1953 me tornei, enfim, dono da minha própria história: município emancipado, com nome e rosto próprios. E desde então, todo 24 de junho, eu sopro minhas velinhas — não na data exata da minha fundação, mas na data do meu coração, quando São João, Santo Antônio e São Pedro dançam juntos nas fogueiras, e a colônia italiana que me formou ainda parece cantar, ao longe, suas canções de Garibaldi.
Hoje, completo 133 anos. E olho para o que me tornei com o peito cheio.
Sou cana que vira energia, sou agroindústria que dá emprego e sustento a quem chamo de meu povo. Sou indústria que cresce sem perder a calma do interior. Sou a generosidade de quem planta sabendo que a colheita não é só sua — é de toda a cidade. Minhas ruas guardam o ritmo de quem trabalha de manhã e ainda tem tempo, à noite, para sentar na praça e contar história com os vizinhos. Porque aqui ninguém é estranho por muito tempo: hoje você chega, e depois de um café e uma conversa, já é gente da casa.
Sou pequeno em tamanho, mas grande em pertencimento. Tenho bandas e corais que tocam no coreto da matriz desde que me lembro de existir. Tenho festas que enchem os céus de balões coloridos, luzes que sobem como se quisessem tocar as estrelas e devolver, em troca, um pedaço da minha alegria. Tenho rodeio, tenho música, tenho gente que vira a noite organizando uma festa só para ver o sorriso de quem vive aqui.
Não sou perfeito — nenhum lugar é. Mas sou autêntico. Sou feito de café que já não se planta tanto, e de cana que hoje sustenta minha economia; sou feito de trilhos que já não correm trens, mas que ainda apontam o caminho de onde vim; sou feito de imigrantes italianos e de famílias que chegaram depois, todos misturados num só jeito de ser ibateense — teimoso, caloroso, orgulhoso da própria terra.
Quando alguém me pergunta o que eu sou, eu respondo: sou o lugar onde a lagoa nunca existiu, mas o encanto, esse sim, é real todos os dias.
Feliz aniversário, Ibaté.
133 anos de planalto, de café, de cana, de fé e de gente que não se cansa de amar a própria cidade.























