Há décadas o Partido dos Trabalhadores (PT) constrói sua identidade em torno da defesa dos mais pobres, do combate à desigualdade e de uma retórica que opõe o “povo trabalhador” às elites econômicas do país.
É um discurso que ajudou a eleger prefeitos, governadores e presidentes da República por cinco vezes, e que segue no centro da comunicação da legenda em cada eleição.
Mas os próprios documentos oficiais entregues pelos quadros do partido à Justiça Eleitoral revelam um contraste que incomoda até simpatizantes históricos da sigla: parte relevante da cúpula petista acumulou, ao longo de décadas de vida pública, patrimônios que a colocam entre os brasileiros mais ricos, muito distantes da realidade de quem o partido diz representar.
Não se trata de ilegalidade — os bens são declarados, como manda a lei —, mas de uma tensão discursiva que raramente é explicada: como conciliar um projeto político erguido sobre a bandeira da redistribuição de renda com trajetórias pessoais marcadas pelo acúmulo de imóveis, veículos de luxo, cotas empresariais e recursos financeiros que ultrapassam, em muito, a renda média do trabalhador brasileiro?
Dois nomes da política da região ilustram bem esse paradoxo: os ex-prefeitos Newton Lima (São Carlos) e Edinho Silva (Araraquara), ambos do PT, cujas declarações de bens somam, juntas, quase R$ 3,3 milhões.
O patrimônio de Newton Lima
Newton declarou um patrimônio total de R$ 1.349.205,62.
O grosso desse valor está concentrado em imóveis: ele possui um apartamento em São Paulo avaliado em R$ 709.412,60, além de uma fração de outro apartamento em São Vicente, no litoral paulista, e de 1/12 de uma casa residencial também na capital.
Na garagem, o ex-prefeito soma três veículos: um Ford Fiesta, um Ford Fusion 2009/2010 e um Jeep Renegade, este último avaliado em R$ 169.200,00, o bem móvel mais caro da lista.
Newton também mantém uma cota de consórcio não contemplado de mais de R$ 151 mil, dinheiro em espécie declarado de R$ 5 mil e recursos depositados em contas judiciais que ultrapassam R$ 211 mil somados.
Completa o quadro um saldo modesto em conta corrente no Banco do Brasil.
O patrimônio de Edinho Silva
Já o patrimônio de Edinho, atual presidente nacional do PT, soma R$ 1.948.033,50, quantia superior à de Newton e puxada principalmente pelo setor imobiliário.
Uma casa no Jardim Maggiore, em Araraquara, está avaliada em R$ 1.496.568,14 — sozinha, ela representa mais de três quartos de todo o patrimônio declarado por ele. O petista também possui outra casa, no Jardim Aclimação, avaliada em R$ 128.057,74.
Edinho ainda declara participação societária em duas empresas: é dono de 100% do capital social da Morada do Sol Gestão Empresarial e detém 80% das cotas da Rei Pet Ltda.
Em sua garagem, dois veículos recentes chamam atenção: um Chevrolet Tracker 2023/2024, de R$ 134 mil, e um Chevrolet Tracker 2025/2026, de R$ 160 mil.
O saldo em conta corrente declarado é de pouco mais de R$ 26,8 mil.
Quem é Newton Lima Neto
Nascido em São Paulo em 1953, Newton Lima Neto é engenheiro químico por formação, com mestrado e doutorado na área pela Universidade de São Paulo (USP). Construiu boa parte de sua carreira na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde foi professor a partir de 1976 e reitor entre 1992 e 1996.
Filiado ao PT, entrou na política de forma mais direta a convite de Lula e elegeu-se prefeito de São Carlos por dois mandatos consecutivos, de 2001 a 2008.
Em 2010, foi eleito deputado federal, mandato que exerceu até 2014. Depois, ocupou cargos na Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) e dirigiu o campus da Capital da Tecnologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).
Mais recentemente, voltou a disputar a Prefeitura de São Carlos nas eleições de 2024, com o apoio de nomes de peso do PT e de aliados como o então vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Quem é Edinho Silva
Edson Antonio da Silva, o Edinho Silva, nasceu em 1965 em Pontes Gestal, no interior paulista, e mudou-se ainda criança para Araraquara, cidade que se tornaria o centro de sua trajetória política.
De origem humilde, trabalhou como office-boy e operário antes de se formar em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e cursar o mestrado em Engenharia de Produção na UFSCar.
Filiado ao PT desde 1985, foi vereador em Araraquara nos anos 1990 e depois prefeito da cidade por quatro mandatos (2001–2008 e 2017–2024). Também foi deputado estadual por São Paulo, presidiu o PT paulista e ocupou o cargo de ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff.
Em julho de 2025, Edinho deu um novo passo em sua carreira partidária ao ser eleito presidente nacional do PT, sucedendo Gleisi Hoffmann e o interino Humberto Costa no comando da legenda.







