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São Carlos adia campeonato de propagar asneiras

São Carlos ia sediar, neste sábado (1º), a 1ª Competição de Farmar Aura, na Praça XV, a partir das 15h30, com organização da Rádio Nativa FM 88,9. A proposta era simples e, para muitos, simplesmente risível: reunir jovens dispostos a exibir “carisma, estilo, presença e criatividade” diante de plateia, com direito a premiação e até uma “Modalidade Sertanejo” para dar um verniz caipira à bobagem.

O evento, porém, não vai mais acontecer na data prevista — a organização anunciou o reagendamento, alegando que a “grande procura” tornou inviável realizar a disputa na Praça XV, já ocupada por outro evento programado pela Secretaria Municipal de Habitação.

Antes do adiamento, a iniciativa já havia rendido repercussão nas redes sociais e uma crítica direta do vereador Paraná Filho (PP). Em vídeo, o parlamentar não poupou adjetivos ao comentar o encontro: chamou o comportamento dos jovens de anormal e definiu a geração Z como “vazia”, associando o fenômeno a “problemas intelectuais e distúrbios de personalidade” — fala que, previsivelmente, dividiu opiniões entre quem concordou com o tom e quem viu exagero e desrespeito na declaração de um representante público.

Afinal, o que é “farmar aura”?

Para quem não navega nesse dialeto de internet, a explicação é simples e, ao mesmo tempo, sintomática de um vazio cultural que se naturalizou. “Farmar” vem do vocabulário dos games e significa repetir uma ação mecanicamente até acumular pontos ou recursos. “Aura”, por sua vez, virou sinônimo de carisma, status, aquele “algo a mais” que supostamente torna alguém popular. Juntas, as palavras formam uma gíria que resume a lógica de uma geração inteira treinada a colecionar validação como quem completa uma missão de RPG: gestos calculados, poses ensaiadas, frases de efeito repetidas à exaustão — tudo em nome de parecer mais interessante do que se é.

O problema não é a gíria em si, que como qualquer código de linguagem juvenil tende a nascer, viralizar e desaparecer sem maiores traumas. O problema é o que ela revela: uma geração que troca conquistas reais — estudo, trabalho, relações genuínas — pela produção industrial de imagem.

“Farmar aura” é, no fundo, a confissão de que a autoestima virou métrica, algo a ser acumulado como um jogo qualquer em vez de construído com substância. Transformar carisma em competição de palco, premiada e cronometrada, é reduzir a personalidade a performance, e performance, sabemos, é o oposto de autenticidade.

Os efeitos colaterais já são visíveis: ansiedade alimentada pela comparação constante, validação que dura o tempo de um vídeo e esvai junto com o próximo trend, e uma juventude cada vez mais fluente em parecer e cada vez menos treinada em ser.

Rotular isso de “distúrbio”, como fez o vereador do PP, é raso e beira o desrespeito — mas fingir que não há nada de preocupante nessa cultura da aparência também é ingenuidade. Entre o exagero do político e a euforia dos organizadores, fica a pergunta incômoda: quando uma geração inteira precisa de arquibancada para se sentir gente, o que ela está, de fato, tentando preencher?

Por ora, a resposta vai esperar. O campeonato foi adiado, e a nova data ainda será anunciada.

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